sábado, 16 de abril de 2011

Módulo 1 - Resenha

TECNOLOGIAS E ENSINO PRESENCIAL E A DISTÂNCIA
KENSKI, Vani Moreira. Tecnologias e Ensino Presencial e a distância, Campinas SP. Papirus.  8ª.  Edição 2010.   

O livro resulta de vários textos. É um produto de pesquisas acadêmicas, vivências pessoais e de palestras proferidas pela autora que reuniu os textos em sintonia, em que um complementa o outro. A autora reuniu os textos em uma coletânea no intuito de colaborar para “o melhor desempenho dos professores”. É uma obra literária composta por nove capítulos.
A autora inicia o primeiro capítulo desmistificando a idéia redutora que se tem de tecnologia, vista como algo aterrorizante, ameaçador, para logo em seguida afirmar que a tecnologia já está presente no cotidiano como algo totalmente integrado aos hábitos diários. Outro ponto a ser esclarecido é que as tecnologias não são algo recente. A chamada “era tecnológica” já é algo real desde o início da civilização.
Portanto desde que o ser humano passou a construir objetos para enfrentar os desafios da vida a tecnologia existe, compreende-se então que a tecnologia não surge na sociedade industrial ou nos novos tempos da era virtual. À medida que a tecnologia vai evoluindo, percebem-se mudanças no comportamento das pessoas.
Outro esclarecimento em relação à idéia que permeia o imaginário social em relação à tecnologia é que a mesma não se restringe a ferramentas, máquinas, equipamentos. Existem as chamadas tecnologias da inteligência que é uma articulação mental em busca de novos conhecimentos. Considera-se enquanto tecnologias da inteligência a linguagem oral, a escrita e a linguagem digital. A linguagem digital está articulada às TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) através de seus suportes (TV, Computador etc.). A tecnologia de informação e comunicação não se confunde com seus suportes.
Observa-se que os suportes das TIC passam a ter uma relação muito estreita com os usuários, uma relação que envolve até sentimentos. A autora buscou apurar essa relação mais aprofundadamente e apresentou dados de uma pesquisa realizada por Reeves e Nass que objetivava verificar o grau dessa aproximação, para concluir que “As novas tecnologias de informação e comunicação, caracterizadas como midiáticas, são, portanto, mais do que simples suportes. Elas interferem em nosso modo de pensar, sentir, agir, de nos relacionarmos socialmente e adquirirmos conhecimentos. Criam uma nova cultura e um novo modelo de sociedade” (p. 23)
A interferência da tecnologia na forma de agir e ver o mundo apresenta características peculiares na era digital em um novo momento tecnológico, que em muito difere da sociedade industrial. A tela se torna mais acentuadamente o centro das atenções. Uma janela aberta para o mundo, capaz de interligar universos e culturas as mais diversificadas.
A dimensão das novidades que surgem com o avanço constante das tecnologias é absolvido pelas pessoas sem que se tenha despertado uma apreensão crítica das informações e conhecimentos que afloram. A autora ressalta a importância do despertar de uma visão e apreensão crítica de tudo o que se apresente com ares de informação, conhecimento, inovação. Deve-se buscar superar uma assimilação acrítica dos conteúdos. A escola dentro deste contexto é chamada a agir no sentido de despertar essa visão crítica. Apresenta-se enquanto um grande desafio da escola e dos professores enquanto profissionais do ensino, estimular uma visão crítica de tudo o que se apresenta como conhecimento.
Ainda, referindo-se à visão crítica sobre todo o processo de evolução tecnológica, há que se refletir sobre o aspecto democrático quando se fala em um conhecimento para todos. Não se pode afirmar haver universalização do conhecimento diante de uma significativa exclusão sócio-econômica vigente. Essa exclusão interfere nas perspectivas democráticas trazidas pelas inovações tecnológicas. É um desafio que se apresenta enquanto resquício de problemáticas sociais ainda não superadas.
No entanto não se pode deixar de apreender o potencial desta nova realidade e do intercâmbio direto que mantém com a escola. Para a escola acompanhar o ritmo da era da velocidade atual precisa estar aberta às mudanças constantes e a absorção de novos conceitos e novas formatações, a exemplo do ensino à distância ministrado por escolas virtuais. Os conhecimentos disponíveis em rede abrem perspectivas amplas para que se aprenda sem necessariamente ter que haver uma configuração espacial e temporal totalmente definida e demarcada. Todas essas possibilidades têm suporte nas tecnologias da inteligência, em especial a terceira delas, a linguagem digital que advém das novas tecnologias eletrônicas de comunicação e informação.
Portanto apresentam-se novos modos de compreender, nos quais a idéia concebida de um conhecimento enraizado, pertencente a um tronco com galhos das diversas áreas do conhecimento,  já não cabe na concepção do ensino. A autora ilustra a sua colocação através da referência clássica em que se visualiza a estrutura do saber por meio da imagem de uma árvore. É um conhecimento temporal em que se estabelecem hierarquias rígidas entre campos de conhecimentos específicos. Apresenta a proposta de Deleuze e Guattari como proposição contrária à idéia da árvore. É a idéia de rizoma, que são espécies de haste subterrâneas que se multiplicam e ramificam, para comparar com a forma de ver o mundo nos novos tempos em que a difusão do conhecimento, advindos de várias áreas se proliferam através das novas tecnologias de comunicação. É um conhecimento fluido.
A fluidez do conhecimento e o que ele representa interfere também na prática docente que, para além das teorias,  precisa mudar suas percepções e,  independente da utilização ou não das novas tecnologias de comunicação e informação, tem que conceber o ensino de uma forma  inovadora e diferenciada daquela anteriormente utilizada. Os ordenamentos do ensino não mais podem ser pensados do ponto de vista positivista, mas como algo que possa ser dinamicamente reelaborado. Um contexto  em que o profissional do ensino precisa ter assegurado uma formação contínua que considere inclusive os seus anseios. Independente da utilização das novas tecnologias em sala de aula, o profissional precisa estar participando das mudanças e inovações do seu tempo e compreender sua lógica.
Um professor que possui intimidade com as inovações tecnológicas poderá, inclusive, intervir na instalação de programas e softwares em suas escolas. Por ter um conhecimento aguçado poderá evitar que programas ultrapassados sejam instalados como modelo de inovação. A formação destinada ao professor deve proporcionar, portanto, condições para que ele possa produzir, operar e criticamente intervir no uso das tecnológicas, definindo ou participando da definição do que mais se adéqua para aquela realidade específica.        
Não basta acesso a sofisticados meios tecnológico sem haver a necessária reformulação total do sistema de ensino. São reformulações que passam também pela valorização da carreira docente, garantia de qualidade na formação do professor permitindo que tenha formação atualizada e que assim possa dar respostas às novas exigências.
No capítulo III a autora apresenta as características do espaço escolar em que se dá a aula presencial. Local em que pessoas circulam e se entrecruzam em um espaço determinado. Tudo é tão intenso que mesmo não havendo atividades, mesmo estando o prédio escolar vazio, é um espaço que parece estar constantemente povoado por seus agentes. São corpos em movimento.
O momento atual é um novo tempo mediado pela linguagem da sedução (TV, cinema). A linguagem audiovisual em que se mesclam som, movimento, a exemplo de jogos eletrônicos, filme de ficção, a utilização de palavras de outros idiomas, geralmente o inglês. Linguagem midiatizada, através dos textos eletrônicos, dos hiper textos e novas possibilidades no ato de ler. Todo esse universo de possibilidades amplia o alcance da escola frente aos alunos e a sociedade como um todo, não mais se limitando ao espaço escolar, mas também não o suprimindo.
A autora delineia também os contornos de uma aula virtual, caracterizada em uma tela de computador. Sua estrutura é a linguagem em um campo que permite a distribuição de conhecimentos sem que necessariamente todos os alunos estejam presentes em um mesmo local. Apesar da virtualidade das aulas à distância existe a interação das pessoas através de atividades colaborativas que permite interação através do diálogo on-line. É uma “nova forma de linguagem e de cultura” (p.56).
Para acompanhar todo esse ritmo ditado pela nova era a escola precisa gestar sua atuação a partir destas inovações tecnológicas para que elas não sejam apenas um apêndice, mas que façam parte da constituição mesma da escola. Escolas adaptadas para utilizar o sistema de redes, com espaço físico reformulado, que tenham implantado laboratórios, midiotecas etc. Há também que refletir sobre as novas maneiras de se tomar decisões com mais precisão, mais velocidade, rapidez, menos burocracia, possuir departamentos mais autônomos, em suma, acompanhar o ritmo ditado pelas potencialidades virtuais.
O professor transforma-se em pesquisador tendo um conhecimento em permanente estado de ebulição. Um desafio, portanto, ao se perceber que existe uma grande fissura entre as proposições da nova era mediada pelas novas tecnologias, e a formatação do ensino que ainda não se integrou e continua rotineiro e repetitivo.  Quando se fala  sobre os desafios postos para adequar o ensino às novas tecnologias,  está implícita a necessária formulação de políticas públicas que visem concretizações na qualidade do ensino, caso contrário a retórica irá sobrepor-se às práticas e às inovações.
Dentro deste universo as aulas presenciais já não são as únicas possibilidades de ensino. As aulas virtualmente ministradas já se mostram como alternativas para um grande universo de pessoas impossibilitadas de responder às exigências de uma aula presencial. Além da inclusão social que o ensino a distância permite, estabelece-se também, a partir dele, uma relação interinstitucional o que contribui para formação de um cidadão participativo.
É um momento em que as certezas já não são tão definidas, mas que estão em constante processo de mudanças. As definições hierárquicas são flexibilizadas e os papeis sociais sofrem alterações. As informações estão circulando e não centralizadas em um determinado centro referencial. A informação se apresenta enquanto um produto a ser consumido e que se torna um bem a ser possuído. As pessoas estão em permanente busca pelo saber, pelas novidades, independentes de serem professores ou alunos.
Todas as mudanças decorrentes da interatividade virtual interferem na forma de pensar, raciocinar e interagir. Os espaços virtuais ocupados pelos internautas passam a fazer parte do seu mundo, mexe com sua estrutura mental e sua personalidade. As pessoas sentem-se pertencentes a uma determinada comunidade virtual interagindo e ampliando seu legue de contatos. É o ciberespaço que surge e se mostra como outra possibilidade de territorialização. Cria-se uma identidade cultural e sentimento de pertencimento a um grupo composto por pessoas de lugares os mais diversos.   
As comunidades mediadas pelo computador também interferem nas relações políticas e nas participações democráticas e possuem capacidade para enfrentarem o monopólio dos meios de comunicação. Apesar de ser ainda um desafio por haver toda uma estratégia em manter o privilégio e o predomínio por parte dos que detém o poder econômico e político, são comunidades que podem ser classificadas como de aprendizagem ou não.
Para ser considerada comunidade virtual de aprendizagem, esses grupos virtuais precisam ter objetivo específico de aprender. São comunidades originadas de cursos virtuais que permanecem para além do período do curso, dura o tempo do interesse dos membros em mantê-la. As comunidades virtuais possuem formas de integração que são possibilitadas pelas redes de interação, cooperação e colaboração. A interação pode ser realizada em tempo real entre os usuários, permite partilha de sons, imagens etc., inclusive troca de objetos o que diferencia esses ambientes das salas de bate papo.
A cooperação. Vários softwares foram criados no sentido de dar suporte a trabalhos em grupo via rede. Uma nova tecnologia para gerar sistemas denominados Groupware, um sistema que suporta grupos de pessoas engajados em um ideal. Trabalhos cooperativos são realizados a partir destes recursos permitindo que se compartilhem idéias e desenvolvam trabalhos em uma interação que se dá em tempo real ou em outros momentos.
Colaboração. Não basta apenas a existência de espaços virtuais em educação, é necessário haver condições de intercâmbio através de grupos, em que possa se dá o processo de colaboração entre seus membros para realização das atividades educativas. São grupos que se criam e que para além dos conteúdos de aprendizagem estabelecem regras de convívio que cabem no plano virtual e real. A colaboração é diferente da cooperação, pois ela permite a construção de uma atividade coletivamente, aonde existe a interdependência e o desenvolvimento do espírito de respeito mútuo.
A interação e o ensino sempre se interligaram e as novas tecnologias em nada diminuem esse elo. Os novos espaços virtuais de interação em busca de aprendizagem são formas diferentes e diversificadas de comunicação voltadas para o ensino, no entanto o que poderá revolucionar o ensino é a forma de utilização das tecnologias seja o livro, o giz ou computadores em rede.
As primeiras formas de interação no ensino ocorriam diretamente entre o aprendiz submisso e o mestre detentor do conhecimento. Com o surgimento da escrita e do livro, novas possibilidades surgem no processo interativo, no entanto o conhecimento ainda pertence ao mestre e a estrutura vertical permanece. As tecnologias digitais interferem na estrutura vertical e linear do ensino por permitir informações e construções individuais do conhecimento, rompe assim com um referencial único e central do conhecimento. A internet permite vários níveis de interatividade em relação ao ensino.  
No entanto mesmo utilizando os níveis de interação virtual, a aula pode continuar tradicionalmente sendo aplicada com o professor ocupando a mesma posição de detentor de conhecimentos, e o aluno permanecendo como passivo receptor. É o dinamismo da aula e a participação cooperativa que fará a diferença. Para tanto é necessário ter clareza da importância do sistema cooperativo na elaboração de cursos em rede e também em cursos presenciais e semipresenciais. Para que se tenha uma aprendizagem permeada pela colaboração é necessário que alguns princípios básicos sejam observados conforme cita autora:  a  interdependência do grupo, a interação, o pensamento divergente e a avaliação.  São novos mecanismos de aprendizagem que vão exigir novos métodos radicalmente diferentes de ensinar,  no qual o professor é o maestro e “a música é feita por todos”.
O texto percorre o universo das novas tecnologias e sua relação com o ensino. Foca os desafios atuais para integração da escola com as inovações tecnológicas. É um livro que frisa, com precisão, as indispensáveis reformulações que o ensino deve obter, a partir de políticas públicas sérias e realmente comprometidas com a democratização do conhecimento. A autora ratifica os imprescindíveis investimentos na qualificação de uma formação destinada aos professores que esteja em sintonia com os novos tempos, que seja eficaz e que ofereça condições para enfrentar os desafios de uma sociedade dinâmica, veloz e em contínuo movimento de mudanças.
Em todo o livro,  a autora fala com autoridade de quem conhece o ambiente educacional e tece opinião procedente. As análises apresentadas no livro, se levadas em consideração nas reformulações das políticas públicas voltadas para o ensino, em muito poderão contribuir para efetivas mudanças na educação. Apresenta, ainda, textos objetivos e de fácil leitura, possibilitando ao leitor compreender o universo das novas tecnologias e ajuda a tecer uma relação mais critica com o contexto virtual.  Em alguns momentos, as definições e ou pequenos trechos parecem repetitivos, ou seja, parece encontrar em alguns capítulos definições já lidas em outros capítulos, algo justificável já que o livro é uma coletânea de diversos artigos produzidos e publicados pela autora em eventos, periódicos e capítulos de outros livros.
       A leitura é sugerida para profissionais da educação de todos os níveis, educadores, coordenadores, gestores e, principalmente, para àqueles que trabalham com a inclusão tecnológica e todos os outros que desejam compreender e apreender sobre o novo mundo com o uso das Tecnologias da Informação e Comunicação.

(Irabel é professora da escola pública, licenciada  em Letras com Inglês pela UNIFACS.)

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